Em pesquisa feita pela Organização Mundial de Saúde (OMS), foi constatado que o Brasil tem o quinto maior número de mortes em acidentes de trânsito no mundo. Baseados em números do ano de 2007, período em que 35,1mil pessoas morreram estima-se que 18 pessoas morrem para cada 100 mil habitantes no país. Somente este ano em Uberaba, o Corpo de Bombeiros, que registra pessoas que morrem na hora do acidente, apurou oito mortes e em 2008, sessenta pessoas perderam a vida na cidade. Entre elas, Adriano Luiz Félix, jovem de apenas 22 anos.
Adriano estava a caminho da Universidade de Uberaba onde cursava Direito, durante o percurso que fazia em sua moto Honda NX Falcon, estava na Avenida Santa Beatriz quando uma caminhonete Blaizer virava à esquerda e o motoqueiro não conseguiu evitar a colisão. De acordo com o Corpo de Bombeiros a caminhonete deveria ter esperado a moto passar. Uma vida perdida e que abala todos que conviviam com o jovem. A família ainda não se sentiu preparada pra falar em um assunto tão delicado. Outras pessoas tiveram a vida interrompida por imprudências no trânsito.
A festa estava boa, mas já era hora de voltar para casa e aproveitar o restinho do dia com a mãe, era por volta das 18 horas do dia 05/03/2006. A carona com um amigo da cidade veio na hora certa, eram apenas 20 quilômetros entre o local da festa e Santa Juliana, onde ele morava. Não havia problema. A velocidade ainda é uma incógnita, a chuva fez com que o motorista perdesse o controle e batesse em um eucalipto. Rodrigo Dib Carneiro passou pela janela e foi lançado 18 metros do local do acidente. A morte foi instantânea. No carro haviam quatro pessoas, todas sem cinto de segurança, além de Rodrigo, outro jovem perdeu a vida no mesmo acidente.
Quem relata a história é Aleida Maria de Rezende, mãe de “Bim”, como Rodrigo era conhecido. Ele tinha apenas 23 anos e cursava o quarto ano de Engenharia Mecatrônica em Uberlândia. Divertido, alegre, deixou muitos amigos, a mãe, o irmão Jean Carlo e os sonhos, como o de ir morar na Alemanha com o tio após a formatura, programada para aquele ano.
O relato cheio de emoções vem de um coração que mesmo depois de três anos ainda sofre com a perda. Aleida havia saído para o sítio da família e deixou o filho em casa. Quando voltou se deparou com uma movimentação estranha no hospital que ficava perto de sua residência. Percebeu que tinha alguma relação com seu filho devido à presença de vários amigos do jovem.
“Não foi só o Rodrigo que morreu, junto uma família inteira sofre e eu morri um pouco também, é um vazio, um pedacinho que só ele preenchia e que nada nem ninguém vai ocupar. É um quebra cabeça que perdeu uma peça e nunca mais vai ficar completo.Não existe violência no trânsito, o que existe é imprudência. Violência é o que fica dentro das pessoas que sofrem por essa situação” Aleida finaliza emocionada.
“Não foi só o Rodrigo que morreu, junto uma família inteira sofre e eu morri um pouco também, é um vazio, um pedacinho que só ele preenchia e que nada nem ninguém vai ocupar. É um quebra cabeça que perdeu uma peça e nunca mais vai ficar completo.Não existe violência no trânsito, o que existe é imprudência. Violência é o que fica dentro das pessoas que sofrem por essa situação” Aleida finaliza emocionada.
Há muitas outras vítimas das imprudências. Nathalia Menezes estava ansiosa pela festa para comemorar a tão sonhada maturidade, o dia porém ficou marcado de maneira trágica. Faltava apenas um dia, era 04/01/08 mesma data em que a tia Marilda e seu marido Nilton pediram o carro da família emprestado para levar o filho a uma clinica em Goiânia. Marly e Luiz Carlos, pais de Nathalia, resolveram acompanhar o casal a capital de Goiás, já que a mãe estava de férias e o pai era aposentado. Como o dia seguinte era aniversário da única menina dos três filhos do casal, eles decidiram voltar no mesmo dia.
Uma viagem longa e cansativa, Nilton e Luiz Carlos revezavam no volante. Era a vez do pai de Nathalia, faltavam poucos quilômetros para chegarem à cidade onde moravam, Frutal. Um Citroen estava fazendo o sentido contrário quando resolveu ultrapassar um caminhão em lugar proibido e pegou toda a lateral do gol onde estavam Luiz dirigindo e Marly no banco traseiro. Ambos morreram na hora, aproximadamente às cinco horas da manhã do dia 05 de janeiro de 2008, data em que a jovem completava 18 anos.
“O que a gente sente é que você não tem mais chão. Em relação a dinheiro, em relação a quem pedir um conselho. Por exemplo, se você não der certo em um casamento, ou em um emprego pra onde você volta? Pra casa dos seus pais. Eu não tenho mais isso. Se eu não der certo eu tenho que me virar. Eu agradeço a Deus por ter meus irmãos por que se não fosse eles eu não iria aguentar”, diz Nathalia Menezes, que hoje mora em Uberaba.
Mesmo ao longo dos anos a dor continua, como relata Ângela Maria da Silva que há quatro anos perdeu o filho Jerônimo Cirilo da Silva Neto quando voltava de uma festa de Água Comprida, a perícia relatou que Jerônimo dormiu no volante, perdeu o controle e passou para a pista contrária colidindo de frente com um caminhão. Com apenas 18 anos, era carinhoso, não bebia, não dava nenhum trabalho ou preocupação para os pais. Ângela diz ter descoberto a pior e maior dor que existe. “Eu morri, metade de mim morreu, hoje eu estou aqui, mas se não estiver não faz diferença pra mim. Eu não preocupo com minha casa, não consigo cozinhar como antes e não me preocupo com minha aparência, tudo que faço é pela minha filha, por que sei que ela precisa de mim, às vezes minha vontade é de morrer por que quem sabe assim eu consigo abraçar meu filho” desabafa a mãe.
Sonhos, amigos, amores, mães, pais, filhos, irmãos, tudo isso é o que fica de quem perde a vida de maneira inesperada e evitável. Para as pessoas que ficam a certeza do nunca e a saudade que é eterna. “O que está faltando é mais amor, amor próprio, amor ao próximo, por que quem se ama de verdade não quer que ninguém morra e não permite que isso aconteça, não é só uma vida que é afetada, mas a de familiares e amigos” deixa como mensagem Aleida Maria de Rezende.
